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domingo, 24 de janeiro de 2016

Desafios para vencer o câncer de mama

Tratamento avança, mas há defasagem na incorporação de remédios no SUS


Fernanda Pugliero


A média de sobrevida de uma mulher diagnosticada com câncer de mama metastático é de três anos. Apesar deste tempo ter aumentado nas últimas décadas – em 1970, a sobrevida média era de 18 meses -, discrepâncias no acesso a tratamentos e medicações inovadoras podem fazer grande diferença na expectativa de vida das pacientes. O oncologista Rafael Kaliks, do Hospital Albert Einstein, no entanto, salienta que não há regra geral: “Depende do tipo de câncer”.
O Instituto Nacional do Câncer aponta que 58 mil mulheres deverão ser diagnosticadas com tumores malignos na mama este ano. Não há estimativa, no entanto, quanto ao número de tumores metastáticos. Pelo menos metade das pacientes atendidas pelo SUS descobre a doença em estágio avançado, quando a chance de cura é praticamente nula. “O câncer não mata quando está localizado. Há ainda formas de controlar o câncer metastático, o que não existe é acesso universal aos tratamentos”, explica Maira Caleffi, presidente do Femama e chefe do Serviço de Mastologia do Hospital Moinhos de Vento.
A defasagem na incorporação de novos medicamentos no SUS atrapalha o tratamento de alguns tipos de câncer de mama mais agressivo. A terapia para o HER2+, subtipo da doença, aparece em uma lista da ONU como uma das que todos os países deveriam oferecer às populações. No Brasil, o Transtuzumabe – utilizado no tratamento do HER2+ - está disponível apenas para pacientes em estágio inicial. A Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS, que define que medicamentos serão financiados pelo governo e colocados à disposição na saúde suplementar, negou a inclusão do medicamento para tratamento da doença em fase avançada. “No caso do câncer metastático, a incorporação de drogas alvo é muito difícil”, salienta Maira. Sem acesso pelo SUS, pacientes têm como única alternativa a Justiça.
A oncologista Daniela Rosa, do Moinhos de Vento, aponta que muitas vezes as mulheres que procuram o SUS desconhecem a existência de melhores opções de tratamento. “O câncer de mama é frequente no mundo inteiro. Quanto mais o tempo passa, mais se avança no tratamento.” Ela afirma que os médicos se angustiam por não poderem oferecer o melhor tratamento a pacientes sem recursos financeiros, apesar de conhecê-los.
O oncologista Max Mano sofre diariamente dessa inquietude. Pela manhã, ele atende no Instituto do Câncer do Estado de São Paulo, hospital público. À tarde, é oncologista no Hospital Sírio Libanês, uma das principais referências para o tratamento da doença na América Latina. “ao meio-dia, parece que eu mudei de país. A disparidade é muito grande e cada vez maior”, relata. Na opinião dele, a defasagem entre o atendimento no SUS e em hospitais privados chega a 15 anos.

Frequência na América Latina


Na América Latina, o câncer de mama é o mais frequente entre as mulheres, com 150 mil novos casos/ano. Em países como Peru, Colômbia e México, mais de 50% dos casos são detectados em estágio avançado, quando há metástases. Apesar de o câncer ser descrito como uma doença da terceira idade, 16% da mortalidade decorrente da enfermidade ocorreu em mulheres com menos de 50 anos.


De 1990 a 2010, 17% foi o aumento de morte por câncer de mama entre brasileiras de 30 a 69.


Doenças do coração lideram óbitos


A maioria dos brasileiros (59%) acredita, erroneamente, segundo pesquisa do Datafolha, que o câncer é a doença que mais mata no Brasil. Segundo o Ministério da Saúde, as doenças cardiovasculares, como infarto ou insuficiência cardíaca, registram o maior número de óbitos anualmente. Nessa lista, o câncer também fica atrás da pneumonia, diabetes e hipertensão em número de mortes.


Maioria vê sentença de morte


Pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha revelou que a maioria da população brasileira associa o câncer de mama metastático a um sentença de morte (72%) e a pouco tempo de vida (70%). De cada dez mulheres, quatro afirmam nunca terem ouvido falar sobre a doença. O tamanho do desconhecimento dos homens é ainda maior: de cada dez, seis não sabem o que é câncer de mama metastático. Além disso, a pesquisa apontou que quase metade da população (49%) acredita, equivocadamente, que não existe tratamento para a doença.
Um dos dados que mais chocou os oncologistas é quanto à prevenção. A pesquisa mostrou que 15% das mulheres entre 40 e 69 anos nunca fizeram uma mamografia, independentemente se procuram por atendimento médico no serviço público ou no privado. Esse percentual representa 5 milhões de brasileiras. No SUS, 19% das mulheres nessa faixa etária nunca fizeram o exame, ante 5% das que têm convênio. “Se eu pudesse escolher uma prioridade, diria que temos de diagnosticar o câncer mais precocemente, para evitar tantos casos da doença metastática”, aponta Max Mano.
De acordo com os especialistas, a metástase está intimamente relacionada ao diagnóstico tardio. Enquanto na Europa de 5% a 10% dos casos são identificados na fase metastática, no sistema público brasileiro, o número chega a 50%.
O Datafolha realizou a pesquisa em 174 municípios. A amostra teve 2.907 pessoas, representa os 118 milhões de brasileiros com idade superior a 25 anos.


Campanha alerta sobre o tratamento


A campanha nacional “Por Mais Tempo” divulga informações sobre a possibilidade de tratar o câncer de mama metastático e fazer com que as mulheres vivam mais e melhor. “A maioria acha que ser diagnosticado significa reta final, que não existe esperança ou tratamento”, afirma Luciana Holtz, fundadora da Oncoguia, associação que defende o direito dos pacientes com câncer.
Entre as frentes da campanha está também a discussão sobre a dicotomia de tratamento oferecidos no SUS e em planos privados Uma petição on-line (www.pormaistempo.com.br), criada para a campanha, reivindica ao Ministério da Saúde a incorporação de tratamentos mais adequados para as pacientes com câncer de mama metastático.



Fonte: Correio do Povo, página 9 de 27 de setembro de 2015.