Por Alex Pipkin
A Venezuela não caiu do céu. Foi construída com método, sustentada por discurso e legitimada por aplausos entusiasmados, muitos deles sinceros, bem-intencionados e profundamente equivocados.
O que aconteceu ali não é um desvio histórico nem uma perversão isolada, mas o resultado lógico de um modo de operar repetido à exaustão por líderes que se autodenominam progressistas enquanto governam como velhos autocratas, apenas com vocabulário renovado e muito sentimentalismo. Não são elites esclarecidas; são deselites de poder, enriquecidas à custa da miséria que juram combater em pronunciamentos carregados de falsa gravidade.
Combater a pobreza, nesses regimes, significa torná-la permanente, funcional, politicamente útil. O pobre ideal não é o que ascende, mas o que espera. Espera o benefício, o reajuste, o próximo anúncio oficial feito com tom grave e promessa vaga. Um cidadão reduzido a catador de migalhas institucionalizado, treinado para agradecer ao Estado e desconfiar da própria autonomia. Afinal, liberdade exige esforço, e esforço cansa.
A Venezuela é o efeito Orloff da política latino-americana: “eu sou você amanhã”. Mudam-se os países, preserva-se o roteiro. Promete-se dignidade, entrega-se dependência. Promete-se justiça social, constrói-se estagnação. A engrenagem gira em círculos perfeitos, onde a pobreza supostamente diminui, mas nunca desaparece; o assistencialismo cresce, mas a dignidade segue fora de catálogo.
Mais da metade da população acaba deitada sobre o colchão do Estado, confortável o suficiente para anestesiar e frágil demais para sustentar qualquer projeto de vida. O Leviatã não quer puxar o colchão — dependência gera poder, e poder vicia —, e muitos já não querem levantar, porque o risco da autonomia assusta mais do que o desconforto da tutela permanente. Chama-se isso de proteção; na prática, é controle com verniz de bondade.
É duro dizer, mas é verdade, não existe milagre econômico baseado em dependência. Há um ponto em que o atraso vira hábito, e o hábito vira identidade, e então tudo passa a ser explicado como fatalidade histórica ou herança estrutural. Romper isso exige esforço, frustração e tempo, tudo aquilo que o Estado-pai promete poupar com generosidade alheia. A dependência oferece alívio imediato; o progresso cobra dor inicial. A escolha, não raro, é feita com aplausos.
Para sustentar esse teatro, tributa-se brutalmente quem produz. Empresas recuam, empregos somem, a inovação evapora. A economia encolhe, a arrecadação cai e a inflação aparece como castigo silencioso, desses que ninguém assume, mas todos sentem. O tiro no pé vira política pública, apresentado como medida responsável.
Nos governos que se dizem “do povo”, a pobreza deixa de ser um problema a ser resolvido e passa a ser um ativo político valioso. Dependência garante votos. Autonomia assusta. Gente livre pensa, escolhe e — imperdoável — vai embora.
A Venezuela não é um acidente. É um aviso.Um aviso que vem da terra da arepa.
Pontocritico.com
